Passei muitos anos a tentar lidar com a tua ausência, com a dor de ser ignorada pelo meu próprio pai, de ser perseguida pela dor pelo teu desinteresse em relação a mim. Não imaginas quantas vezes tentei-te ligar, ou mandar uma simples mensagem. Pegava no telemóvel, mas a coragem faltava-me. Sabes o que é uma adolescência sem pai? Não deves saber mesmo. Na adolescência todos os problemas parecem o dobro da intensidade e tu eras o meu principal problema. Aprendi a viver com a tua ausência, o que não foi mesmo nada fácil, acredita. Aprendi a pensar de outra forma e só dar valor às pessoas que me dão valor também a mim. Lembro-me em pequenina tu a vires do trabalho e eu a querer colo e tu dizias que estavas cansado. Depois a separação com a minha mãe aconteceu, mas disse bem com a minha mãe, não comigo. Estivemos muitas vezes sem nos vermos, talvez ano a ano, e sempre que ia te ver e não me sentia bem, relembrava momentos que me traziam más recordações. Desta vez foram 3 anos, pois é desde 2007 que não te vejo. Mas houve um dia em que recebes-te uma carta do tribunal e aí lembraste-te de mim, mas nem o meu número tinhas gravado, ligas-te para o do meu padrasto, só disso comecei a chorar. O que mais me deixa triste é tu só me teres ligado quando recebes-te essa tal carta, mas porquê? E ao fim dos outros anos, achas que não merecia ter um pai sempre ao meu lado? Não merecia um sorriso teu? E eu abraço? Ups, esqueci-me nunca me lembro ter-me dado um abraço o máximo é dois beijinhos como uma pessoa que estás a conhecer nesse momento. Sabes o que é sentir-te lixo para uma pessoa que devia de ser a mais importante na minha vida? Que por acaso és tu? Não deves saber mesmo. Eu neste momento não te respondo porque simplesmente não sei viver com um pai, porque para mim um pai é desde o princípio até ao fim das nossas Vidas. Não é estar no início e depois no meio sair dela e só depois se lembra que tem uma filha e quer que tudo volte ao normal, isto se alguma vez esteve normal. Eu não te vou atender, pelo menos por agora, só eu sei o quanto estou magoada com isto tudo, o quanto choro e o quantos suspiros de me sentir ignorante para ti dou. Só eu só, só eu. Sei que para ti também não deve ser fácil, mas para mim não está a ser melhor. Sei que neste momento se leres este texto que te estou a fazer, deves estar de coração partido. Mas eu também estive assim durante anos e acredita que não Vida mais estragada do que isso. Mas para além disto espero que compreendas a minha posição e que não tentes ligar-me, prefiro que me mandes uma carta como te estou a mandar. E adoraria receber. Quero saber o que tu pensas disto tudo, mas por carta. Adoraria ter momentos para recordar de felicidade passados contigo, mas não tenho, apenas tenho um bonequinho que sei que foste tu que me deste quando nasci, porque me contaram, mais nada!
Até um dia.
NOTA:
Este foi um texto que eu escrevi em Abril de 2009. Texto esse que até hoje não tive coragem de lhe enviar. É demasiado pessoal para colocar na internet, mas como sei que há pessoas que só me dizem coisas bonitas e sinceras, sei que não me vou arrepender. Foi escrito no meio de lágrimas e lido à melhor amiga nessa altura que também ela chorou. Fazes más, onde elas às vezes são feitas sem termos o mínimo de culpa. Felizmente hoje já me conformei e já me habituei a esta vida. Com a sua ausência. E sinceramente, já não me vejo a viver com um pai e não um padrasto que até hoje tenho. Padrasto esse que lhe devo a minha vida, pois sem a minha mãe e sem ele, morreria porque são eles que me alimentam, me dão amor e me fazem sorrir. Obrigada.